Fabiana Bez: como um olhar diferente da Arquitetura tem ajudado profissionais a mudarem o foco.

Atualizado: 6 de mai.

Quando alguém trabalha com um propósito real, coisas incríveis acontecem! Batemos um papo com uma visionária, que tem a intenção de mostrar que é possível ir além da parte técnica, quando o assunto é projetar.


Há cerca de um ano, uma publicação apareceu entre os nossos marcados do Instagram: um moodboard com um dos nossos vinílicos. Logo, já fomos atingidos diretamente no coração, quem nos acompanha sabe o quanto somos fãs deste processo criativo – basta dar uma olhada no nosso perfil.


E assim, chegamos até à Materioteca - by Weeloft e mais uns passinhos adiante até a Fabiana Bez.


Entramos em contato, conversamos um pouco via Direct e o convite para conhecermos o lugar foi feito.


No dia e na hora marcada, uma porta azul se abre. De cara, um sorrisão! Acompanhado de muita simpatia e olhos de quem tinha muito a compartilhar – algo no ar dizia que o papo seria ótimo! A alegria e a satisfação que nos recepcionaram era da Fabiana, arquiteta por formação, visionária por natureza e proprietária da Materioteca, a primeira “biblioteca” de materiais de Floripa, e do Brasil.


“Aceitam um café” e assim foi o início de uma conversa que foi se desenrolando em meio a uma diversidade de revestimentos e itens que dão forma a uma casa. Um verdadeiro parque de diversões para arquitetos e designers.


O local é um ambiente de criação colaborativa, serve como uma espécie de coworking, onde o arquiteto/designer vai até a Materioteca e usufrui do espaço e materiais disponíveis. Cria moodboards, materializa os seus projetos e até mesmo leva amostras para apresentar a seus clientes.


Na parte inferior temos uma “biblioteca” para especificação de revestimentos e diversos outros materiais como louças e metais; e no mezanino, um espaço destinado para montagem e visualização de cenários de acordo com o briefing do projeto.


Materioteca

Essa, foi a primeira impressão do espaço superior que logo foi desmistificada, pois durante a visita e a troca de ideias, descobrimos o verdadeiro sentido da sua existência: colocar em prática uma metodologia desenvolvida pela própria Fabiana.

O lugar por si só já é uma grande inovação da área, é possível encontrar tudo o que for necessário para entregar um projeto completo, no quesito físico. Mas além disso, e o mais importante, é a etapa que antecede a concretização: o conhecer quem irá interagir com o que será criado.


E é neste momento, na elaboração do briefing do projeto, que a Fabiana inova. Ela desenvolveu uma metodologia própria onde consegue diagnosticar com precisão o que o cliente necessita, que por vezes não tem consciência do que realmente quer ou do que lhe faz bem.

Maravilhoso! Estávamos diante de um projeto único e pioneiro, com propósito e que vai contra a prática comum da área, de um mercado em que muitos profissionais se consideram artistas, em que assinar um projeto se sobrepõe ao que faz sentido àquele que vai morar (usufruir). Colocar o cliente como centro do projeto, é seguir na contramão, mas que vale a pena buzinar para os outros carros e juntos mudarem a direção da estrada.

E por isso, quisemos nos aprofundar e descobrir um pouco mais sobre a trajetória da Materioteca e sua encantadora criadora.


Era uma vez...

A relação com a arquitetura começou cedo, aos 15 anos, quando suas preocupações eram próprias de uma menina dessa idade e de quem nem imaginava o que seria quando crescesse. Segundo suas palavras, Fabiana teve uma experiência plena com a arquitetura através de um sonho:

“Estava vestida toda de branco – sentindo-me mal fisicamente e emocionalmente – e caminhava por um bosque, com muitas plantas. Eu ia andando por este lugar, passava por uma ponte onde embaixo havia um córrego e à medida em que ia avançando, prestava atenção no som dos passarinhos, do vento batendo nas plantas... e toda essa atmosfera foi me acalmando. Até que, cheguei em uma casa inteiramente construída em vidro – estilo Mies van der Rohe – em que conseguia enxergar todo o bosque da parte de trás da casa”.

Obedecendo sua intuição, lançou-se na parte interior da casa e conta: “... tudo era muito claro, com móveis e objetos brancos. Havia pessoas, vestidas de branco, transparecendo tranquilidade e que passavam por mim, mas não falavam comigo. O tempo em que fiquei lá, fui me acalmando, a ansiedade passou e tive uma sensação de cura”.

Quando acordou, lembra que chegou à conclusão: “Nossa! A arquitetura é tudo isso? Eu nem imaginava que poderia afetar tanto assim o meu estado físico e emocional”.


O pontapé inicial foi o sonho, mas o que estava por vir?

Ao longo do tempo, ela foi amadurecendo e entendendo que a arquitetura traz cura e felicidade, também. E ingressou no curso superior por conta disso, e enquanto cursava buscava essa resposta, mas não a encontrou. “Ninguém falou sobre isso, nenhuma matéria abordou esse lado subjetivo. Aprendi a desenhar e a projetar. O arquiteto se gradua altamente técnico e só”, nos contou. Seguiu sua busca, talvez encontrasse as respostas dos seus anseios na pós-graduação, mas também não as encontrou, não existia um curso que abordasse o tema desejado – e ainda não existe.

Foi aí que ela começou a estudar e a se dedicar à criação de um curso que abordasse exatamente o que ela tanto buscou na faculdade e na pós.

“Há 4 anos, desenvolvi uma metodologia de Diagnóstico de Personalidade do Cliente, que engloba muito conteúdo: psicologia ambiental, personalidade, arquétipos, linguagem arquitetônica, estilo de vida, cores, matérias, texturas”. Essa metodologia autoral não só ajudou os colegas de profissão, também a ajudou diretamente em seus projetos, “... isso mudou toda a dinâmica dos meus projetos, pois tenho 22 anos de mercado, mas a Materioteca, apenas 1 ano e meio. Comecei a aplicar o método também em meus trabalhos, o que os tornou 100% assertivos, não houve mais refações e as pessoas ficam altamente realizadas. Fazendo o diagnóstico é possível conhecer a fundo o cliente, traduzindo no ambiente que ele vai usufruir”.

Sem isso, Fabiana hoje constata que projetar vinha sempre acompanhado da dúvida “será que o que estou projetando vai atingir de fato o objetivo? E será que o usuário vai ser impactado da forma que eu imagino?”.


Diagnóstico de Personalidade

E foi através da técnica de moodboard, ferramenta de representação visual, o caminho para afastar qualquer tipo de dúvidas e fazer entender um pouco do ambiente. “O cliente precisa ser educado, ele possui uma visão muito limitada da coisa (arquitetura). Quando você conversa com ele e pede referências, vai te falar o que gosta e isso vai limitar o trabalho do arquiteto, porque ele só vai te falar aquilo que conhece, o que ele entende. O profissional tem um mundo gigantesco e vasto de conhecimento, do que tem a oferecer e tem que saber explicar para fazer sentido a ele. O arquiteto existe para fazê-lo enxergar novas possibilidades. E este é o ponto de partida para este entendimento”.


Fabiana Bez explicando o moodboard de um projeto.

WEELOFT Treinamentos

Então, o método raiz de investigação foi nomeado de WEELOFT, “As pessoas perguntavam: ‘por que você não começa a ensinar os outros arquitetos? Tens que ensinar!’. E eu respondia: mas eu não sou professora e a devolutiva era: ‘você é sim, você gosta de ensinar, de explicar’”. WEELOFT, inovação em processos criativos! O nome veio do lugar em que ela imaginou acontecer os cursos: “... naqueles espaços industriais, muito comuns em Nova Iorque, os chamados lofts – locais onde os artistas moravam e criavam todos juntos, um trocando experiência com os outros”. Por isso, WE (nós em inglês): para dar um senso de comunidade + LOFT: que remete a esse lugar de reunião de criativos. O “E” a mais foi para fechar a quantidade de letras, por conta da numerologia.


Mezanino, o laboratório onde tudo acontece!

Por que Materioteca?

Decidido o nome, faltava então a parte física, um laboratório dos cursos. E assim nasceu a Materioteca, morada dos cursos da WEELOFT e de todos os materiais para mostrar uma pequena parte da metodologia e trazer uma nova experiência ao cliente e arquiteto.

“O espaço nasceu para suprir a necessidade do arquiteto de encontrar tudo no mesmo lugar, com um PLUS: entender um pouco da metodologia, aprender a fazer antes o que geralmente fazem depois”, nos responde Fabi.


Os arquitetos e seus estilos próprios

“Cada profissional tem a sua assinatura, mas a especialização em apenas um estilo pode limitá-lo e esse arquiteto vai viver ‘brigando’ com os clientes que desejarem algo diferente do que ele tem a oferecer. A definição e especialização de um nicho só pode limitar também o atendimento a clientes, e vai atender apenas aquele que realmente se identifique com o profissional superespecializado. E os outros profissionais que querem se desafiar? Que querem fazer todos os tipos de arquitetura, ele tem que entender para quem ele vai propor o projeto”.

Analisando o seu próprio portfólio, ao enviar para um de seus clientes, Fabiana constatou que tem muitos projetos ecléticos, e isso só se deu graças a sua metodologia que ensina fazer e personalizar de acordo com o gosto de cada um: “O processo também ensina a enxergar valor em todos, todos são interessantes e gostam de ser percebidos deste jeito”.

“Muitos fazem os projetos baseado no que os próprios profissionais gostam e essa metodologia balança muito com eles, eles se sentem desconfortáveis”, para Fabiana, isso é o futuro!


Novo tipo de arquitetura?

A Fabiana nos relatou que já tinha uma palestra prontinha para ser apresentada: “Arquitetura do novo futuro- Balance Design”, mas devido a alguns imprevistos, o projeto teve que ser adiado.

“Balance Design, a arquitetura também é design! O Balance trabalha tudo: corpo, mente e espírito, tudo de forma integrada para o ser humano que vai utilizar” nos explicou.


Balance Design

O conceito trabalha 3 pilares: corpo, mente e espírito “... as pessoas querem isso hoje, elas vão exigir cada vez mais. Chega de fazer tudo igual, ‘quero que você faça algo muito personalizado, para mim’, os clientes já vão chegar pedindo e ansiando por isso. Eles vão exigir que o arquiteto diga o que vão querer”.

Arquitetura e design não funcionam isoladamente. Os materiais e cores interagem, não dá para pensar em nada isolado, tudo tem que ser contextualizado, por isso o uso de moodboard.

“O meio mais rápido, mais barato e mais seguro de prototipar a arquitetura, muito antes de gastar dinheiro fazendo projeto, render, 3D ou maquete física. Este tipo de processo antecipa muita coisa, alinha todos os conceitos e expectativas antes de avançar no detalhamento”.

“A maior queixa que eu escuto é o retrabalho, porque saiu fazendo um projeto, um 3D e o cliente não gostou do resultado, conclusão: volta para refação. Isso é tão comum que tem profissional que já prevê alterações no contrato”, complementa.

A reunião de materiais, o cuidado com a preparação antes de mergulhar no projeto através do moodboard, não é um hábito comum entre os arquitetos, pois são programados para saírem desenhando, projetando, ou seja, pensando em todas as soluções ao mesmo tempo. O que a Fabiana propõe é a quebra de uma cultura de muitos anos.

“Na faculdade, não há esse momento da análise, o briefing é supertécnico, com levantamento de dados como: área, insolação, metragem, quantos cômodos, budget. Ou seja, são falados de coisas técnicas e não de coisas intangíveis como as emocionais e as psicológicas. As pessoas anseiam por respostas, todos querem saber mais de si e quando se trata de casa, se não for de acordo com a personalidade de quem mora ali, aos poucos elas vão ficando irritadas, chateadas e isso vai gerando doença física, emocional... tudo que vem para a parte física iniciou lá atrás, com algum sentimento de algo que não está legal. Do contrário, se você está em um ambiente integrado, que te entende, que tem tudo a ver contigo, estás em paz. A casa é o lugar onde tens que recarregar as energias. É preciso entender qual o estímulo que o ambiente tem que provocar nas pessoas”.


A metodologia

Retomando os 3 pilares, mencionados no início do tópico anterior, o método tem um pouco de cada coisa e serve como um passo a passo para chegar à arquitetura essencialista, voltada para a essência das coisas e das pessoas. Antes de tudo, Fabiana explica que é preciso pensar diferente, ter uma nova cultura e isso tudo englobando corpo, mente e espírito.

Vamos ver um pouquinho de cada pilar:

Corpo – trabalha o conforto, o bem-estar e os 5 sentidos. As sensações são importantes para a arquitetura, pois geram experiências;

Mente – como o entorno é percebido, quais os estímulos deverão ser despertados;

Espírito – sistema afetivo, mexe com o sentimento, psicológico.

O equilíbrio entre estes 3 pilares é o que guia este novo olhar da arquitetura para aquele que importa, que deve ser o centro do projeto: o cliente.

As horas voaram! Quando o papo é bom, o tempo passa bem rapidinho.

Depois de toda a conversa e um pouquinho do que é uma aula sobre o Balance Design, ainda deu tempo para olhar a imensa estante, recheada de discos de vinil, livros, inúmeros objetos e itens. A Fabi compartilhou 3 livros, que mudaram a sua vida: Design, defina primeiro o problema (Jens Bernsen), A arquitetura da felicidade (Alain Botton) e Design Thinking (Tim Brown).



Saímos de lá com a cabeça a milhão! Agradecidos pela grandiosa experiência, cheios de ideias e ansiosos para compartilhar com todos a descoberta de uma linda pessoa, falante e com um grande propósito, que determinada decidiu persegui-lo no momento em que adentrou o bosque, passou pela ponte com um córrego e chegou àquela casa de vidro.





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